UHE Igarapava
Culturas Pré-Históricas

A OCUPAÇÃO HUMANA PRÉ-HISTÓRICA DE MINAS GERAIS

Há mais de 12 mil anos, bandos isolados de homens pré-históricos chegaram casualmente ao território hoje pertencente a Minas Gerais. Esses grupos humanos eram formados por conjuntos de famílias que tinham de 20 a 30 membros. Viviam da coleta de vegetais, frutos, raízes e sementes, da caça de pequenos e grandes animais e da pesca. São chamados pelos arqueólogos de COLETORES-CAÇADORES.
O território onde moravam era muito importante para a sobrevivência das famílias. Grande e variada, a área que ocupavam continha lagos, rios, matas e cerrados. Os recursos naturais eram explorados ao longo do ano, exigindo dos grupos longos deslocamentos conforme a época de frutificação, acasalamento de animais e da subida dos peixes pelos rios para a reprodução, a piracema.
Por volta de 7 mil anos atrás, esses homens começaram a polir a pedra e fabricaram seus primeiros machados.
Há cerca de 4.500 anos o milho passou a ser cultivado. Esse foi um momento extremamente importante para eles. A coleta não foi abando-nada, mas a partir daí os bandos podiam aumentar sua população sem provocar desequilíbrios no meio ambiente, pois passaram a produzir parte do seu alimento se tornaram HORTICULTORES. Surgem, então, as aldeias, que eram pequenas no início. 
A cerâmica começou a ser fabricada por volta do nascimento de Cristo (2 mil anos atrás). Os alimentos podiam, a partir de então, ser preparados de maneiras diferentes nas panelas de barro, a água podia ser armazenada em maior quantidade e os grãos podiam ser melhor guardados e preservados.
Ao redor do ano 1000 depois de Cristo já existiam aldeias enormes, com mais de mil habitantes. A população crescia em todo o território brasileiro. Estima-se que havia cinco milhões de indígenas no Brasil quando os portugueses aqui chegaram em 1.500.
Em Minas Gerais, essas populações indígenas começaram a ser des-truídas por volta de 1680, com a chegada dos bandeirantes paulistas a procura de ouro e pedras preciosas. Hoje existem, apenas seis tribos, perfazendo 7.275 indígenas. No Triângulo Mineiro já não existe mais nenhum índio. 
Os locais onde hoje são encontrados os vestígios deixados por essas populações antigas são chamados SÍTIOS ARQUEOLÓGICOS.

PRÉ-HISTÓRIA DO TRIÂNGULO MINEIRO

Ainda se conhece muito pouco sobre a pré-história do Triângulo Mineiro. Os trabalhos realizados para salvar os vestígios deixados pelos homens pré-históricos, que seriam cobertos pelas águas dos reservatórios das Usinas Hidrelétricas de Nova Ponte, Miranda e Igarapava, possibilitaram aos arqueólogos conhecer os padrões culturais dos principais grupos que habitaram a região.
As pesquisas foram realizadas na bacia hidrográfica formada pelos rios Araguari e Quebra-Anzol, onde foram construídas as Usinas Hidrelétricas de Nova Ponte e Miranda, e na bacia hidrográfica do rio Grande, onde se encontra a Usina de Igarapava. 
Essa parte do Planalto Central Brasileiro se caracteriza por um relevo ondulado, onde se destacam morros de topos planos (CHAPADÕES). A vegetação predominante é de CERRADO e matas galerias e ciliares que margeiam os rios.

OS PRIMEIROS HABITANTES

Hoje, sabe-se com certeza, pelos estudos realizados, que o homem pré-histórico chegou a Minas Gerais há mais de 12 mil anos. A datação mais antiga conhecida para a região do Triângulo Mineiro é de 7.300 anos.
Nas áreas pesquisadas no Triângulo Mineiro, vizinhas das Usinas Hidrelétricas de Nova Ponte, Miranda e Igarapava, foram identificados 46 sítios arqueológicos pertencentes a esses grupos. A maioria corresponde a locais onde os instrumentos de pedra eram fabricados. Apenas quatro desses sítios arqueológicos apresentam sinais de  terem sido locais de moradia.
No verão, quando os frutos são abundantes, esses COLETORES-CAÇADORES, geralmente moravam nos chapadões, onde existia a vegetação de cerrado. Nas outras estações eles viviam nas proximida-des dos grandes rios, onde a caça e a pesca era mais disponíveis. 
As ferramentas fabricadas e utilizadas por esses homens parecem ser, à primeira vista, simples pedras brutas. Mas ao se observar essas peças com atenção, vê-se que elas apresentam pequenos lascamentos e possuem um formato especial. 
Os instrumentos típicos produzidos por esses antigos habitantes eram os raspadores frontais plano-convexos, mais conhecidos como “lesmas”. Eles produziram também um grande número de facas e outros tipos de raspadores usados para fabricar instrumentos de madeira e osso, cortar e desossar a carne da caça. Um outro tipo de artefato, dificilmente encontrado é a ponta de projétil.

OS POVOS CERAMISTAS

As vasilhas e outros objetos de cerâmica, apesar de serem encontrados quase sempre quebrados, são capazes de fornecer muitas informações importantes sobre seus fabricantes. Por meio deles podemos saber como esses grupos preparavam seus alimentos, se fiavam o algodão para fabricar redes e bolsas, e até mesmo como enterravam os seus mortos.
Em qualquer sociedade humana existem variações culturais, como a língua, a música e a religião, que permitem diferenciar os grupos uns dos outros. Nos povos ceramistas pré-históricos essas diferenças apareciam também em suas vasilhas de barro. O estudo da forma, tamanho e acabamento dos potes permite identificar o grupo cultural que os fabricou.

A TRADIÇÃO ARATU

Os arqueólogos chamam de TRADIÇÃO ARATU um determinado grupo de HORTICULTORES que fabricavam cerâmica. Esses homens pré-históricos, antepassados de grande parte dos índios mineiros, habitavam extensas zonas de vegetação de cerrado, com manchas de mata ao longo dos rios.
O território que esses grupos ocupava incluía uma grande porção do Estado de Minas Gerais, partes dos Estados de Goiás, São Paulo, Espírito Santo e de alguns estados do Nordeste.
A TRADIÇÃO ARATU teve suas origens há mais de 2 mil anos e com certeza os grupos indígenas dessa cultura já estavam  instalados na região do Triângulo Mineiro por volta de 1.500 anos atrás. De um total de 164 sítios arqueológicos contendo restos de cerâmica, descobertos nas áreas vizinhas das três Usinas Hidrelétricas (Nova Ponte, Miranda e Igarapava), apenas dez não pertenciam a essa Tradição. Portanto, pode-se concluir que os grupos ARATU dominavam aquele território e consideravam a região um local ideal para viverem. 
Suas aldeias ficavam situadas em áreas de mata galeria, próximas ao cerrado, junto a algum córrego, afluente do rio principal. A instalação das casas, sempre perto de um afluente do rio, se dava em função da necessidade de terem água limpa para o abastecimento. 
A distância entre a aldeia e o rio geralmente não ultrapassava os 500 metros. É interessante notar que eles conheciam perfeitamente o nível máximo das cheias dos rios, até mesmo as maiores cheias, que costumam ocorrer a cada 20 ou 50 anos. Assim, eles nunca eram pegos de surpresa, ao contrário do que acontece hoje nas nossas cidades. 
As aldeias não duravam muitos anos em um mesmo local. Assim que as terras das lavouras davam sinal de cansaço ou que as pragas começavam a atacar as plantações com mais freqüência, era hora de mudar. 
O milho era o principal alimento cultivado por esses povos. Certamente deviam plantar outros vegetais como tomate, amendoim, cará, batata doce, feijão, pimenta e um pouco de mandioca. Outras plantas como cabaça, algodão e fumo também faziam parte da roça, embora não fossem comestíveis. A presença de rodelas de cerâmica, usadas para tecer o fio do algodão, indica que provavelmente faziam redes, bolsas e sacolas. 
A maioria das panelas de barro, feitas pelas mulheres das tribos desse grupo, não tinham decoração. Apenas alguns potes de uso especial possuíam asas, bicos, cabos e alças. Eles ainda podiam ser decorados com linhas finas impressas ou com banhos de barro vermelho. 
Os potes podiam ter a forma  semi-esférica ou de tigelas rasas. Grandes vasos de forma cônica, que lembram uma pêra, eram usados para preparar as bebidas alcóolicas consumidas nas festas da aldeia. 
Quando alguém importante da tribo morria, esses vasos eram usados como caixão, que os arqueólogos chamam de urnas funerárias. Foram encontradas, dentro dessas urnas, vasilhas de cerâmica formadas por duas tigelas rasas unidas lateralmente, e outras com forma de cabaça, de uso exclusivamente cerimonial. 
Os instrumentos eram feitos de pedra, como machados polidos, usados para a derrubada das árvores da mata. A abertura de clareiras era importante para o preparo das roças e instalação das aldeias. Blocos de arenito (rocha de areia) foram escavados e transformados em pequenos pilões. Pedras arredondadas (seixos rolados) eram usadas como martelos e batedores. Lascas de arenito eram utilizadas como facas, raspadores, plainas, furadores, e outros instrumentos, que serviam para cortar carne, trabalhar a madeira, o osso e as peles dos animais caçados.

A TRADIÇÃO TUPIGUARANI

Esta tradição arqueológica define um grupo de horticultores ceramistas que teriam surgido na Amazônia há 3 mil anos. Ela apresenta uma ampla distribuição por todo o território nacional, tendo chegado tam-bém às Guianas, ao Paraguai, ao Uruguai e ao norte da Argentina através da navegação dos grandes rios brasileiros. Suas aldeias são encontradas quase sempre próximas a esses rios.
A chegada dos TUPIGUARANI à região do Triângulo Mineiro aconteceu um pouco antes da chegada dos portugueses ao Brasil. Pelo menos mil anos antes, os povos da TRADIÇÃO ARATU já haviam se instalado por essa região e não permitiram que os TUPIGUARANI ocupassem  seu território.
Por isso, só foram encontrados, nas áreas pesquisadas, nas vizinhanças das Usinas Hidrelétricas de Nova Ponte, Miranda e Igarapava, dez sítios arqueológicos que correspondem a pequenas aldeias e acampa-mentos dos TUPIGUARANI. As aldeias se localizavam sempre em áreas de mata, em vertentes suaves,  e as roças, nas várzeas dos rios. 
 Além da caça e da coleta, também cultivavam vegetais. Tinham na mandioca a sua principal fonte alimentar, embora usassem também o milho. 
As formas características básicas da cerâmica da cultura TUPIGUARANI são os potes, que têm o corpo com ângulos, e outras vasilhas bem abertas e rasas, semelhantes a grandes pratos, próprias para assar biju ou torrar farinha de mandioca. 
Feitos para cerimônias, os recipientes de uso especial, apresentavam decoração pintada ou impressa no barro. A pintura desses potes geralmente era em 3 cores: fundo branco com linhas pretas e vermelhas formando figuras geométricas. As marcas impressas mais comuns eram feitas com as unhas (UNGULADO) ou por beliscões dados no barro ainda mole (CORRUGADO). 
As tribos sepultavam seus mortos mais importantes em grandes potes decorados (IGAÇABAS em língua tupi), que anteriormente haviam sido utilizados para o preparo de bebidas cerimoniais. 
Martelos de pedras roladas, quebra-cocos, polidores para osso, lascas para cortar, serrar, raspar, furar e ralar constituíam seus instrumentos de pedra. 
Machados e cavadeiras (utilizados na derrubada das árvores e preparo da terra para plantio) e mãos-de-pilão (usadas para triturar o milho) constituíam seus  artefatos de pedra polida.

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